Domingo, Julho 12, 2009

Santa ou Puta?

A vida tem umas coisas engraçadas por dentro dela. Ganhei um apelido na roça: “Santinha”. Dizem eles que pareço com a moça da novela. Pode? Não sei. Vai ver que é só na brancura. Mas enfim... apelido não se pode recusar. Feio. Como presente. E meu nome já fora esquecido entre as montanhas daqueles cafezais. Só Santinha e pronto! E lá vou eu me meter na conversa das vacas ou ficar numa admiração danada por aquele tamanho de céu que a noite descobre.

Quando volto à cidade, meu nome toma conta de mim, assim, como há de ser. E nesses intervalos do dia, em plena madrugada, fui numa festa de aniversário, num café na Augusta com putas peladas e música do Roberto Carlos. Uma coisa diferente. E divertida. Vestido jeans, botas e batom me seguravam no balcão. Estava eu ali, buscando um intervalo naquele desvario todo, quando um ser cabeludo me aborda sem querer ou querendo muito. E disse: “você trabalha aqui?”

Eita, confusão danada! Santinha de Minas ou Puta da Augusta? Já nem sei mais quem sou eu.

Os Reis Preguiçosos!


Quarta-feira, Julho 08, 2009

Diminutivo

Quer saber... O amor é generoso por demais. Se há egoísmo não é amor. É obsessão, é confusão, possessão... Vai ver que o nome disso é paixão. Amor é tão maior que esses "ãos" todos. O amor ele abre mão, respeita, cuida, gosta de sorrisos. E é isso. Chega de usar a palavra amor em vão.

Sábado, Junho 27, 2009

Nosso Senhor do Bonfim

Esgarçada e pálida, ela continua envolta do meu pulso esquerdo, não combinando com nenhuma roupa que eu coloco e sendo alvo de gozações alheias. Um trapinho amarrado em mim. Afivelado com três nós, como reza a mandinga de amor. A ponto de se romper e trazer você até mim. E fico só imaginando... como será este fim? Amém, Sr. do Bonfim!

Terça-feira, Junho 23, 2009

Budapeste



Fui ver Budapeste na sessão das duas junto com as velhinhas. Fazia tempo que não ia na salinha 5 do unibanco. E gostei do resultado. Tem pessoas que falam que adaptação de uma obra literária para o cinema é uma transposição de linguagem, ou seja, uma nova leitura onde o diretor há de ter criatividade e liberdade para dar visualidade às imagens que estão nas palavras. E é difícil para nós, amantes da literatura, compreender essa liberdade. A gente quer ver e sentir o que a gente viu e sentiu quando leu o livro. Pelo menos eu sou assim. A gente quer fidelidade. Mas... ando meio mudada de opinião. Tenho uma grande amiga que vem debatendo comigo constantemente sobre esse olhar mais respeitoso em relação à linguagem visual. Gostei, sim, do filme. O José Costa, vivido por Leonardo Medeiros, é muito bom. As imagens do escritor anônimo enriquecem a história bastante. E foi dica pós-livro de Chico, claro. Quando ele escreveu Budapeste nunca tinha ido à cidade húngara. Desconhecia a lenda do escritor anônimo e a reverência a essa história que eles têm por lá. Muito bom isso!
Budapeste é amarela e apaixonante. A língua húngara, aquela que até o diabo respeita, fascina e cativa. A brancura de Kriska eternece. A estátua de Lenin desfilando no Danúbio é um recheio bom e diferente. E tem uma frase que me ficou... "e a poesia despeja de dentro".

Domingo, Junho 14, 2009

Sempre você

Sonhei com você durante todo o meu sono. O sono parece a bruma engolindo a noite, que todo dia engole o dia. E você engoliu todos os outros meus inconscientes produtores dos sonhos. Eu não queria acordar, mas o despertar engoliu o sono e o sonho. Mas que não engoliu você, que continua dentro do meu peito quente, dos meus pensamentos, sonhos acordados e de cada vontade minha.

Terça-feira, Junho 09, 2009

Branca

A espera é branca, é feito nuvem grande passando, feito espuma do mar chegando. Eu espero você faz tanto tempo, que já nem me lembro quando.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Meu predador

“A luta faz o homem e o homem faz a luta.
O homem transforma o mundo e o mundo transformado transforma o homem”.

Antônio Cândido sobre Grande Sertão: Veredas

Quero você aqui comigo. Com este seu olhar de predador bebendo o que há de segredo em mim. Nós dois temos muito ainda o que descobrir. Quero sua barba pousando na minha pele clara. A gente devaneando juntos sobre todas essas dores passadas. E sentindo um calor agressivo no peito de arrancar as roupas, de travessuras inéditas, de casamento bem feito entre línguas e lábios.

Espero você todas as noites desde então. Um vinho e aquela sua mão a percorrer toda a minha extensão. Somos combatentes da mesma luta, do mesmo medo. Queremos a mesma coisa, não?

Sexta-feira, Junho 05, 2009

Festa Junina


Quinta-feira, Maio 28, 2009

Viagem


"Não tenho mais a ínfima ideia do que me aguarda neste caminho que escolhi. Da mesma forma, não sei se faço a coisa certa. Muito menos se existe alguma lógica, alguma explicação admissível para essa empreitada. Mas ando em busca de um sentido, de um nome, de um corpo. E por isso farei essa viagem de volta, para ver se não os esqueci perdidos por aí, em algum lugar ignoto(...)".
A Chave da Casa, Tatiana Salem Levy

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Imitando o Michel Laub

Vou imitar o escritor e blogueiro Michel Laub e listar alguns destaques culturais e de entretenimento do meu momento atual.

O disco que está tocando sem parar no meu carro - Cantar Caipira, de Pena Branca

Uma comédia romântica boba que me fez chorar - O Melhor Amigo da Noiva

Um show de apaziguar a alma - Ceumar na Fecap

Um livro - O Fio das Missangas, de Mia Couto

Uma peça de teatro - O Homem da Tarja Preta, texto de Contardo Calligaris e direção de Bete Coelho, no Teatro Eva Herz.

Um blog - Blog do Michel Laub

Um desconcerto bom - Do Outro Lado do Muro, de Manu Maltez



Domingo, Maio 10, 2009

Ser Tão Cultura


Pois é. Demorou, mas vai acontecer. A Fundação Casa Grande aterrisa em São Paulo com os Cabinha, os "Cabão", Alemberg, Rosiane e a turma toda. Na Mostra "Ser tão Cultura" que começa dia 21 de maio, no Sesc Ipiranga, oficinas, seminários, shows, exposições... Uma delícia e interessante programação diretamente da Chapada do Araripe.
Segue o flyer - lindão demais! - feito por Estevão Bertoni do Bazar Pamplona.
Imperdível isso tudo!
Essa mostra acontece graças à constante luta e comunicação de Alemberg, à determinação e à paixão de Mariana e ao Sesc Ipiranga que abraçou o Cariri bem forte.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Primeiras Rosas

Fui ver Primeiras Rosas, espetáculo da Cia Pia Fraus inspirado em contos do Primeiras Histórias de João. Uma lindeza! Fiquei estarrecida diante das adaptações com tanta delicadeza e poesia.
Vale a pena! É no teatro do Sesi, na Paulista. De quinta à domingo.


Segunda-feira, Maio 04, 2009

Esperando você.

Eu não sei como chegar até você. Pretendia traçar um plano, mas tenho fôlego curto e criatividade escassa. Parece que depois de conviver com Riobaldo durante tempos, finalmente aprendi que "o mundo é meu, mas é demorado...". E a paciência ficou assim, morando em meu olhar, fazendo cócegas no meu sorriso. "Pois o sertão é uma espera enorme", seu moço. Lembro do seu jeito de criança diante da música, mas ainda não decifrei o que seu olhar tímido quer dizer. Precisamos nos topar mais nesta travessia.

Terça-feira, Abril 28, 2009

Adiante...

Ontem, reencontrei uma amiga das antigas, assim, num esbarrão rápido na Rua Augusta. Fiquei matutando o quanto a gente casa e separa por aí com os amigos, ao longo da nossa história. O quanto os caminhos são díspares. E estas ferramentas tecnológicas atuais - MSN, orkut - são ilusórias. Não há nada que consiga substituir o momento "café-pausa-cigarrinho" que há nas firmas. Era nesses momentos cheios de fumaça, que tínhamos os papos mais bizarros e filosóficos. Em meio às esfirras de palmito, a gente devaneava um tanto juntas. Saudade sincera de quem já não anda sentindo mais saudade de nada.

À noite, encontrei com um grande amigo, das antigas também, por telefone. Há muito que não ria tanto. Há muito que não sentia o quanto a minha história é e foi legal ao lado daquelas que estiveram comigo.

E é quando estou assim na minha maior das tristezas é que tenho vontade de pular no colo quentinho desses meus portos seguros todos. Mas sei que preciso me encher de coragem pra seguir adiante, como me aconselha João.

"Tem um ponto de marca que dele não se pode mais voltar. Tudo tinha me torcido pra um rumo só, somente para adiante".

Bora, Mônica. Bora que tem muito mais ainda.

PS - Adoro o beijo escrito com todas as letras e não abreviado, como na internet - "bjo". Escrever beijo por inteiro, assim como ele é "B-E-I-J-O" é não abreviar uma vontade, um sentimento. A consideração é deveras.

Sábado, Abril 11, 2009

Menino do Riso


"Só no verde dos seus olhos é que pula o menino do riso".


João Guimarães Rosa


Domingo, Março 29, 2009

Resignação

Faz quase dois meses que comecei a treinar 'corrida'. Estava incomodada com o fato de estar sem fazer nenhum exercício físico, só engordando, minha capacidade pulmonar regredindo, pensando que meu cérebro estava meio "em descanso" por falta de oxigenação necessária. Pirações à parte, precisava mexer meu corpinho de 28 anos, antes que fosse tarde. E na falta de outras coisas acontecendo na minha vida, precisava sentir aquela sensação prazerosa da endorfina liberada assim que nos exercitamos. E lá fui eu procurar uma turma, um professor, uma camisetinha patrocinada, um tênis adequado para sentir meu coração mais pulsante.

Nas primeiras semanas fui a café-com-leite mais notada da galera. Sem condição nenhuma de correr por falta de ar e preparação, eu só andava e andava. Entre as ruas tranquilas da USP e a pista arborizada do Parque Villa-Lobos, quando olhava aquela legião de corredores me ultrapassando, ficava muito tempo a pensar: será que um dia eu consigo?

E entre acordar 6h da matina e ficar dormindo um pouco mais, comecei a pegar firme. A minha maldita companheira, a Dona Asma, deu um chá de sumiço. Ela, que sempre se fez lembrar em momentos decisivos como nos campeonatos de natação da minha infância, nos beijos mais longos e na minha peregrinação às alas hospitalares em que estão localizados os queridos inaladores, companheiros de cantoria nas madrugadas de crise.

Ainda não emagreci quase nada, confesso. Sinto que estou com o corpo bem mais disposto, que não preciso dormir tanto para me sentir bem e que minha cintura tá afinando. Meus colegas de corrida falam: "não desista, menina". Ops! Claro que não! E lá vou eu entre aquela legião de corredores, todos me ultrapassando e eu com meu humilde trote, tô chegando lá. A galera culturete do trabalho diz que trote é coisa de poltra, de cavalo. Gozações à parte, trotar é um verbo que comecei a conjugar bastante.

Hoje, durante o meu percurso de 5km onde estava correndo - literalmente, acreditem! - e recheada de resignação para concluir meu treino, pensei em tudo isso... nessa trajetória, na minha respiração, na minha ansiedade em demasia, nas minhas idéias voadoras, nos meus pés no chão. Estou contente por estar determinada neste momento em vencer a asma, em melhorar meu físico, em ter mais saúde e conseguir correr 5km sem parar. Porém, mais que tudo isso, é o instante de desassossego que é posto em reflexão durante os km/h. É saber que o tempo voa, que o tempo corre e anda e o que a gente pode fazer com ele. É sentir o quanto a gente pode mudar, movimentar e dançar com as nossas atitudes. É saber o quanto a gente pode com tudo nesta vida. Até com aquilo que parece impossível aparentemente.

Correr pra mim é resgatar um sorriso esquecido dentro do peito. É adormecer um gato. É meu instante infinito.

Sexta-feira, Março 27, 2009

desconcertada

Ando atarantada e, ao mesmo tempo, desconcertada demais. Danado do tempo que nos sequestra das pausas brancas e nos leva de locomotiva por todas as cenas. Aquele olhar no olhar não se demora mais. Ele é fugidio, acelerado, editado. Mas como são desconcertantes os breves instantes em que estamos juntos. Tenho vontade de me atirar em seus braços e me cobrir de abraços intensos, como são seu traços lá fora. Aquele desenho me namora aos poucos. É o nosso elo, branquelo...

Segunda-feira, Março 23, 2009

Os sem-nome do amor

Conheci esta música e lembrei do amor entre Riobaldo e Diadorim.

Deve haver um campo
santo
antro
dentro da pessoa
que por alguém se apaixona
sem saber sequer seu nome
Pode ser Antônio
barco
solto
pode ser Thereza
nuvem
vespa
Quem por alguém se apaixone
sem saber se foi em nome
do amor

Sexta-feira, Março 20, 2009

Versatilidades


E sábado, dia 21 de março, tem início o Versatilidades, projeto que reunirá autores versáteis da nossa literatura contemporânea. E nada melhor que começar com ele, o querido Marcelino Freire, agitador de baladas, autor de contos porradas, aglutinador de pessoas afinadas com a diversidade das palavras. Salve, Marcelino!


Junto com ele, estarão Fabiana Cozza, Duo Abanã, Manu Maltez e grupo Clariô de Teatro.


Veja mais aqui. Ou aqui.



Segunda-feira, Março 02, 2009

Porteira dos sonhos


Deixe o sonho entrar pela porteira, ser misturado com a fumacinha mágica do fogão à lenha e se acabar entre as montanhas maternas que acalentam nosso sono.

Há realidade em demasia em nosso cotidiano. Precisamos virar história algum dia para escapar da dureza imposta. Entre latões de leite, frutas no pomar, flores, pintinhos, santinhos e chiqueiro, a gente vai concebendo a nossa imaginação.

E esta casinha cravejada na montanha mágica nos convida a viajar para as entrelinhas do mundo inventado, aquele limiar que poucos conseguem atingir. E viva o encantamento que ainda existe dentro de nós. Viva a energia que nos envolve de coragem e de inspiração para a luta!

Domingo, Fevereiro 15, 2009

O outro pé da sereia

Olhos
Vale tê-los
Se de quando em quando
Somos cegos
E o que vemos
Não é o que olhamos
Mas o que o nosso olhar semeia no mais denso escuro.

Vida
Vale vivê-la
se de quando em quando morremos
E o que vivemos
Não é o que a vida nos dá
Nem o que dela colhemos
Mas o que semeamos em pleno deserto.

(poema encontrado entre os papéis de Luzmina Rodrigues)

in O outro pé da sereia de Mia Couto.

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Alguém que me ame de verdade!

Na última segunda, assisti ao filme "Alguém que me ame de verdade", lá no Cine Bombril, com a minha amiga Mari. O filme americano conta a história de duas moças de vinte e poucos anos que dão aula numa escola novaiorquina, tornam-se amigas e são de religiões bem diferentes: uma judia ortodoxa e a outra muçulmana. As duas compartilham a pressão dos pais para que elas se casem com os "escolhidos" da religião. Mas o curioso é que não se trata de duas revoltadas com a tradição de cada cultura. Elas aprovam e gostam. Porém, elas querem se apaixonar, como qualquer menina da face da terra. Sentir o amor começar no olhar trocado e depois incendiando com o palpitar daquele músculo dentro do peito até apagar a fome por alguns dias. Confesso, gostei muito da cumplicidade das duas amigas e da busca pelo estado "apaixonado" de ser. Afinal, tem delícia maior do que este estado de paixão?



Apaixonei-me poucas vezes nesta minha vida. De perder a fome foi apenas uma rara vez. Mas me lembro como se fosse hoje, há 15 anos, vários pães-de-queijo na mesa e eu só pensava no meu vizinho que adorava desfilar de sunga preta e lavar o carro do pai nos finais de semana. E naquele mesmo dia, este menino que causava este estado de regime em quase todas as gurias do bairro, foi me chamar em casa e não perdeu tempo. Foi logo dizendo a que veio e me surpreendeu com um beijão no portão. O primeiro de muitos que viriam.

Quando somos adolescentes, a gente se apaixona e pronto! Não criamos muito senões, como: "será que ele é da minha religião?" ou ainda... "o que será que ele vai ser quando crescer?" ou mais ainda "que time ele torce?". E na medida que a gente vai crescendo a razão vai se apoderando de um jeito do nosso peito que as restrições vão se firmando e formando um perfil que precisa ser minimamente respeitado pela emoção. É duro confessar isso, mas é assim que as coisas acontecem hoje. É um quase um contrato de afinidades, de condições e combinação de temperamentos.

Da outra vez que eu me apaixonei avassaladoramente, já tinha uns 20 e poucos, ele gostava das minhas coxas e eu gamei na barba dele. Torcíamos para o mesmo time. Ele tinha um emprego mor legal e eu tinha sonhos promissores. Gostávamos de fugir quando pintava um problemão. E gostávamos do tom melado do Frejat. Por um bom tempo fomos apaixonados um pelo outro, aí depois veio o amor... e aí depois ... ah, o depois... acabou-se o que era doce.
Porém, agora, nos quase 30, quando um olhar me desperta um palpitar diferente, me vejo com perguntas do tipo: "será que ele é casado?", "será que ele ainda mora com mãe?" ou ainda... "será que ele consegue me fazer sorrir?"
Faz um tempo que parei de procurar a paixão analisando barba, cabelo e bigode. Quero que ela venha solteira, através de um sorriso na tarde de domingo, dentro de um aperto de mão carinhoso até desaguar num beijo arrebatado na chuva. Mas que ela venha com poesia e vontade. Que venha sincera, doce e inédita. E que, principalmente, me faça rir! Porque esta é a melhor parte de todas: sem melancolias e com muita graça.

Sábado, Janeiro 17, 2009

Crônicas da Cidade


Acordo com barulho de motor rangendo raivoso, acompanhado por um conversê danado ao pé da minha janela e, claro, um cheirinho de cigarro fedido. De segunda a sábado, às 7h em ponto, incia-se minha rotina matinal. Luto com os travesseiros. Coloco-os sobre meus ouvidos para não ouvir, nem sentir todos esses estímulos, mas é em vão... Um prédio vem sendo erguido atrás de casa faz uns meses. As estacas já foram batidas. As árvores cortadas ou mudadas de lugar. As casinhas de vila demolidas. A fase atual é um monte de caminhão entrando e saindo sem parar despejando terra, cimento e sei lá mais o quê. Confesso, tô cansada de barulho, de cheiro de diesel, de atolar meu único par de tênis no cimento quando chego em casa para abrir o portão, pois há muito a minha calçada sumiu.

Meu lado ranzinza está aflorado diante deste quadro de concreto de construção. Antes, abria minha janela e tinha vista para um pomar com casinhas de vila alaranjadas. Hoje, nem abro mais. Pelas frestas, enxergo uma espécie de serra pelada "paulista".

Gosto e desgosto de São Paulo com a mesma intensidade. Abomino esta ambição que a cidade tem em ser vertical, acelerada e cinza. Adoro silêncio. E por aqui os carros de pamonhas, as betoneiras e os shows de pagode na rua me poluem. Desde que as vizinhas Dona Amoreira e Dona Jabuticabeira saíram de perto, não ouço mais nenhum pio de pássaro algum. Sinto falta. Desagrada sentir o chão tremer quando o buzão vai-e-vem na rua. Quase não tem estrelas neste céu de congestionamento de avião. Os tatu-bolinhas se foram da escada e as borboletas se aposentaram por aqui.

Mas diante deste caos todo, há uma poesia que só São Paulo tem. Uma cumplicidade das luzes, dos túneis, dos olhares solitários mesmo com tanta gente disputando o mesmo lugar. Até as filas tem sua poética própria. Vá ao Auditório Ibirapuera e lá as pessoas fazem fila em formato caracol, seguindo o movimento da rampa de acesso ao Teatro. Bela coreografia!

Desvairada, sim, a paulicéia é minha, é sua, é do mundo!
PS - Convite aos interessados. Em comemoração ao aniversário de 455 da nossa cidade de São Paulo, o Sesc Ipiranga promove um encontro entre cinema e literatura a partir de quarta-feira. A programação reúne a exibição de um filme em 35mm sobre a cidade (clique no flyer e confira) e, após a sessão, um bate-papo com um determinado escritor. Venha debater o lado poético, desvairado, periférico e esotérico da cidade que é a nossa São Paulo com Ivana de Arruda Leite + Via Láctea (21), Ferrez + Os 12 Trabalhos (22) e Luiz Ruffato + Signo da Cidade (23).

Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

Junie, Bia e as meninas de 16

Num raro momento online no MSN, reencontrei uma ex-aluna minha dos tempos da rádio, a Biazinha, uma menininha doce e muita esperta de 8 anos que hoje tem 16, ora veja se pode uma coisa dessas? E depois de conversar sobre vestibular, carreira e tal... veio a fatídica pergunta:
- E o coração?
- O coração?
Ela indagou.
- Anda jorrando sangue pra tudo quanto é lado.

Foi o que ela me respondeu de prontidão. Ah, adolescência! O quão dramático são seus dias. Como o amor é sofrido!

Eu, euzinha aqui, aos meus 16, era uma sofredora romântica, diga-se de passagem. Para aliviar a dor de amor que me acometia, tocava um andante bem extenso com as luzes apagadas do quarto e sem ler partitura. Bem rápido para assim a dor poder sair de alguma forma por meio daqueles dedos que dançavam sobre as cordas de nylon do meu velho violão companheiro. Essa era uma das formas de tentar amenizar aquele negócio meio indecifrável e grande que morava dentro de mim. Além desse escape, costumava escrever muito também. Eu e minhas amigas sofredoras, ainda sem o tão querido e companheiro e-mail, escrevíamos cartas a mão todos os dias e por mais que nos falássemos pessoalmente ao vivo e a cores na escola, a palavra escrita traduzia coisas, organizava o pensamento de tal maneira, que a oralidade era incapaz de fazer. O drama do amor de 16 anos combinava com a palavra escrita, tão poética, tão sofredora, coitada!

O filme francês "A Bela Junie", de Christophe Honoré, retrata bem esta angústia amorosa juvenil. O roteiro - uma adaptação livre do romance La Princesse de Clèves, de Madame de La Fayette, escrito no século XVII - mostra que por mais que os séculos andem, parte do retrato continua o mesmo. A protagonista, linda de doer os olhos, é uma jovem novata na escola que é alvo de paixões dos alunos e do professor de italiano. Uma cena em especial, com um jukebox, denota tanta poesia e cumplicidade num mundo contemporâneo recheado de visualidade, imediatismos e de "pegações".
Como bem disse uma amiga minha quando saímos da sessão na última segunda, "é uma malhação francesa". Tá certo que a Malhação é qualquer coisa. As meninas e os meninos fazem artimanhas maldosas e descabidas por conta de um amor. Até o golpe da barriga - tão antigo - ainda é um mote super presente na novelinha brasileira. Mas o ideal romântico tá lá presente, não tá?


Junie, assim como a Bia, como eu há anos atrás e como muitas garotas de 16 anos, busca no amor romântico a resposta da inquietação que nos move. E, em muitos momentos, mesmo que inconsciente, prefere mantê-lo num ideal platônico, para não haver a desilusão, o choque com a realidade que é tão efêmera, fugaz e pouco doída. Afinal, a dor de amor é muito inspiradora.

Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

2009 - O ano da festa do Boi

Passei o ano todo tentanto entender esta benditinha inquieta que mora comigo e me faz ser a Mônica que sou. Esta que vos fala e desembesta palavras, às vezes, tão contraditórias. Esta que possui vários "eus" como faz jus ao título do blog, inspirado no livro do Flávio de Souza "Eu e Mim Mesmo", que li quando tinha oito anos e desde então não mais me esqueci da saga do menininho e sua crise de identidade que ora era Luiz, ora era Fernando.
Procurei ajuda do João e do seu Riobaldo que tanto tem dentro de mim. Procurei Miguilim. Achei graça e sossego na poesia do Nhambuzim.
Inspirei-me em Selma, esta ovelhinha simpática a quem tanto invejo por sua doce simplicidade. Assim como na canção do Pato Fu que resume o café com leite nas casinhas simples da cidade. Pedi benção às montanhas mineiras. Conversei com São Jorge Guerreiro.
Busquei desesperadamente no contemporâneo partes da resposta que procuro. Achei a Adriana, o Galera, o Mutarelli, o Marcelino. Ah, Marcelino! Sem dúvida, a literatura me fez uma boa companhia.
E nesta moda de viola acelerada - ou está mais para um chorinho brejeiro e alegre? - eu e mim mesma vivenciamos muitas mudanças. Ah, quantas aconteceram! 2008 foi um ano de rumo novo, sonho realizado, vôo alto, o tatu bolinha teve pouco tempo de ficar devaneando sozinho em sua casa. Trabalhou muito. Teve que compartilhar, casar idéias, reconhecer olhares de frio, dançar com os sorrisos dos novos e tão queridos amigos. E por falar em amigos... esses que nos movem... chegando e partindo... regressando... amigos são sempre a melhor parte desta vida bendita. Afinal são eles que dão sentido à minha alma inquieta, me colorem de inspiração e me deixam com coração quente para sempre recomeçar a viagem de seguir caminho por este mundão afora.

Que venha 2009 fogoso, como numa festa de boi... Pois eu e mim mesma - embora ainda estejamos tentando nos desvendar - já nos enchemos de coragem pra dançarmos juntos. Com vestido, fitas, cantoria, dedilhado de viola e com muita fé!

Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

Melhores Filmes do Zé!

Compartilho aqui a lista dos melhores filmes de 2008, segundo meu querido amigo Zezinho!

OS MELHORES FILMES DE 2008
Por Rodrigo Gerace

Estrangeiros

Shortbus, de John Cameron Mitchell
Paranoid Park, de Gus Van Sant
Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen
A culpa é do Fidel, de Julie Gravas
Um Beijo Roubado, de Won Kar Wai
Rebobine por favor, de Michel Gondry
Sweeney Todd: O Barbeiro demoníaco da Rua Fleet, de Tim Burton
O sonho de Cassandra, de Woody Allen
O escafandro e a borboleta, de Julian Schnabel
Canções de Amor, de Christophe Honoré

Nacionais

Chega de Saudade, de Laís Bodansky
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Casa de Alice, de Chico Teixeira
Linha de passe, de Walter Salles
Juízo, de Maria Augusta Ramos
Santiago, de João Moreira Salles
A Via Láctea, de Lina Chamie
Nome próprio, de Murilo Salles
Tropa de Elite, de José Padilha
Estômago, de Marcos Jorge

PS.* A listinha é bem pessoal... Não se irritem... Vocês sabem que sou obcecados por listas... Neste 2008 achei as estréias cinematográficas bem razoáveis, nenhum filme me entusiasmou ou me deixou catatônico de tão bom, mas alguns se destacaram, causaram certo frisson... são esses que estão na lista acima. Outros, que não vi, devem ter seus méritos, mas meu tempo para o cinema nesse ano foi escasso, a vida acabou sendo mais poética.

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

Diadorim

O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá para se entender - e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar a feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: - Que você em sua vida toda toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... - que era como se Diadorim estivesse dizendo.


J. G. R.



Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Expresso Amapá


A partir do dia 20 de novembro, a cultura Amapaense invade o Sesc Ipiranga com sua dança, sua música, açaí e todo o sabor cultural do povo que vem bem de longe. Vale a pena conferir!

Segue a programação:

AMAPÁ EM CANTOS
De 20 a 30 de novembro de 2008
SESC Ipiranga - Rua Bom Pastor, 822


20/11 (18h): Grupo de Marabaixo
20/11 ( 20 h): Leci Brandão convida Senzalas - AP
21/11 (21h): Enrico Di Miceli e Patrícia Bastos Convidados: Vicente Barreto e Vitor Ramil
22/11 (20h): Juliele e Marcelo Dias Convidados: Celso Viáfora e Nilson Chaves
23/11 (17h): Kléverson Baia e Zé Miguel Convidados: Ceumar e Vital Lima
27/11 (21h): Senzalas Convidado: Chico César
28/11 (21h): Nivito Guedes e Osmar Júnior Convidados: Lucina e Zé Renato
29/11 (18h): Grupo de Batuque
29/11 (20h): Naldo Maranhão e Negro de Nós Convidados: Pedro Osmar e Jean Garkunkel
30/11 (17h): Verônica dos Tambores e Ronery Convidados: Luhli e Leci Brandão

Ingressos ja a venda na rede Sesc SP

Produção: http://www.dbproducoes.com.br/

Xiló

Eis mais um trabalho fruto da terra, em que as pessoas se reúnem para o brincar do amor, da amizade, do respeito, da fé fervorosa, das coisas boas da vida por meio da música. Zé Modesto, um ser inquieto, professor, aglutinador de pessoas e idéias, reúne uma lindeza de repertório neste xiló que se apresenta firme e enraizado dentro de nós.



Esteira

São João, festança
Dedo de Deus, candeia
Rua onde a lua cheia
No céu passeia pra o teu olhar

Vem que ele me alumeia
Farol no breu curtido
Fogueira no meu terral

Tempo de amor brotando
Sumo das tuas veias
Pulsar que me arrepeia
Festa na aldeia do meu olhar

Vem despe e despenteia
Meus sonhos escondidos
No fundo do teu quintal

Meu coração sambeia
E estica esteira procê passar

Céu que te presenteia
E estica esteira procê passar

Vem que o luar clareia
E estica esteira procê passar